O Stuart Bloom tem um belo problema em mãos no primeiro teaser da nova comédia da HBO Max, Stuart Fails to Save the Universe. Ou melhor, tem um multiverso inteiro de sarilhos para resolver. Este novo spin-off de A Teoria do Big Bang – curiosamente o terceiro, logo a seguir a Young Sheldon e Georgie & Mandy’s First Marriage – atira o peculiar dono da loja de banda desenhada (interpretado por Kevin Sussman) para um cenário absurdo onde ele simplesmente parte o contínuo espaço-tempo. E agora anda a tentar colar os pedaços, sem grande sucesso, diga-se.
A premissa da série arranca quando o Stuart dá cabo de um aparelho inventado pelo Sheldon e pelo Leonard, desencadeando acidentalmente um autêntico Armagedão interdimensional. Para tentar remendar a realidade, ele conta com a ajuda da namorada, Denise (Lauren Lapkus). Esta produção de câmara única, com estreia marcada para 23 de julho, promete uma viagem atribulada cheia de buracos de minhoca, múltiplas versões do próprio Stuart e insetos gigantes.
A Fuga à Ficção e o Mergulho na Realidade
Se a perspetiva de salvar o universo num cenário tresloucado não for exatamente a vossa onda, a plataforma tem estado a apostar em frentes bem mais terrenas. Confesso que sou um bocado “vendido” a tudo o que o Bill Lawrence faz. Adoro o Scrubs e achei que o revival de 2026, que nos devolveu o JD e o Turk aos corredores do hospital Sacred Heart, foi um regresso bem-vindo, mesmo achando o argumento um bocadinho frouxo aqui e ali. Mas é com Rooster, que acabou de chegar ao fim na HBO Max, que o Lawrence acertou na mouche.
Por norma, quando uma série gira em torno da vida de quem escreve, a coisa descamba para um chorrilho de egocentrismo bacoco. Basta olhar para Californication, que nos quer convencer de que o quotidiano de um autor é altamente e cheio de glamour. A realidade é ligeiramente diferente. Eu estou aqui a redigir este texto e não tenho um harém de mulheres mortinhas para ir para a cama comigo. Estou enfiado num café, de auscultadores na cabeça, enquanto a minha namorada me manda mensagens sobre o nosso cão.
É precisamente nesta honestidade que Rooster ganha o jogo. A vida de um escritor não é andar a enrolar-se com universitárias de quarto em quarto de hora. É feita de muito tédio, de uma catadupa de desejos por cumprir e de uma rotina que gera muito mais empatia do que a da malta que vive no limite 24 sobre 24 horas.
Os Cacos da Vida Académica e Familiar
Trocando por miúdos, Rooster é uma comédia de dez episódios co-criada por Lawrence e Matt Tarses. Temos o Steve Carell na pele de Greg Russo, um autor de pulp fiction com bastante sucesso que vê o seu casamento ir por água abaixo. O divórcio leva-o a aceitar um lugar de escritor residente na fictícia Universidade de Ludlow, com o único propósito de estar mais perto da filha, Katie (Charly Clive). Ela é uma professora de história de arte que anda a tentar apanhar os próprios cacos depois de o marido a ter trocado por uma aluna de mestrado. Acaba por ser uma mistura muito bem amanhada de comédia de local de trabalho, drama familiar e sátira ao meio académico, onde o Carell faz o seu típico papel de pai embaraçoso, mas desta vez a vestir um blazer em vez de um fato formal.
O elenco, que conta com Danielle Deadwyler, Lauren Tsai e Phil Dunster (o intragável marido Archie, que dá um gozo tremendo odiar), é excelente. Só que o que nos prende mesmo ao ecrã é o argumento. Aquelas pessoas parecem ter pulso, acreditamos no que se está ali a passar mesmo quando a narrativa oscila entre piadas ordinárias e momentos de genuína ternura. Num minuto o Carell está naquele registo de pai desajeitado em que engolimos perfeitamente que ele é só um cromo caído de paraquedas no mundo universitário a tentar encontrar o seu espaço. No respiro seguinte, está a chamar “mamas de porca” a um dos miúdos da faculdade de quem se tornou amigo. Esse empurra-e-puxa orgânico funciona. Melhor ainda, ali ninguém serve apenas de muleta para empurrar a história do protagonista; qualquer um daqueles bonecos tinha estaleca para carregar a própria série.
Neste meio, o John C. McGinley dá bastante nas vistas como Walter Mann, o excêntrico reitor da faculdade. Há nele traços do saudoso Dr. Cox pela incisividade rápida, mas aqui ele é apenas um tipo muito bizarro a tentar agarrar-se ao poder numa universidade em constante mutação. Este arco corre em paralelo com o esforço do Russo para dar a cara pela filha.
No fim de contas, Rooster não tem a pretensão de embrulhar as coisas com um laço perfeito ou de fingir que as pessoas fazem sempre as escolhas certas. Os amigos fazem porcaria, os parceiros também, e o caminho mais óbvio raramente é o que acabamos por pisar. A série nem sequer tenta ser sobre um grande tema formatado, mas antes sobre o tatear de uma vida que raramente segue o guião que imaginámos.
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