{"id":70,"date":"2022-12-15T08:51:22","date_gmt":"2022-12-15T08:51:22","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.mixsoul.org\/?p=70"},"modified":"2022-12-15T08:51:23","modified_gmt":"2022-12-15T08:51:23","slug":"queria-ressuscitar-a-era-dos-anos-70-diz-annie-ernaux-sobre-o-seu-filme-les-annees-super-8-realizado-com-o-seu-filho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.mixsoul.org\/index.php\/2022\/12\/15\/queria-ressuscitar-a-era-dos-anos-70-diz-annie-ernaux-sobre-o-seu-filme-les-annees-super-8-realizado-com-o-seu-filho\/","title":{"rendered":"&#8220;Queria ressuscitar a era&#8221; dos anos 70, diz Annie Ernaux sobre o seu filme &#8220;Les Ann\u00e9es Super 8&#8221;, realizado com o seu filho"},"content":{"rendered":"\n<p>O primeiro filme de Annie Ernaux ser\u00e1 lan\u00e7ado na quarta-feira. Dirigido com o seu filho David Ernaux-Briot, &#8220;Les Ann\u00e9es Super 8&#8221; \u00e9 um document\u00e1rio que remete para os anos 70 atrav\u00e9s de filmagens familiares.<\/p>\n\n\n\n<p>Annie Ernaux apresenta na quarta-feira 14 de Dezembro o seu primeiro filme realizado com o seu filho David Ernaux-Briot, Les Ann\u00e9es Super 8. Neste document\u00e1rio, a escritora agora vencedora do Pr\u00e9mio Nobel olha para os anos 70, que marcaram a publica\u00e7\u00e3o do seu primeiro livro, Les Armoires vides (1974). Por ocasi\u00e3o do lan\u00e7amento deste document\u00e1rio \u00edntimo e pol\u00edtico, Annie Ernaux fala com Franceinfo e explica porque aceitou &#8220;comentar as imagens mudas&#8221; destes filmes de fam\u00edlia dos quais ela \u00e9 agora &#8220;a mem\u00f3ria&#8221;. &#8220;Eu queria ressuscitar a era, dar-lhe cor&#8221;, diz Annie Ernaux.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma montagem de imagens de fam\u00edlia filmadas nos anos 70, imagens silenciosas nas quais a escritora coloca a sua voz e contextualiza estes momentos \u00edntimos da \u00e9poca, Les Ann\u00e9es Super 8 descreve assim um per\u00edodo de &#8220;grande esperan\u00e7a&#8221; durante o qual &#8220;parte da popula\u00e7\u00e3o esperava pela esquerda&#8221;. De 1972 a 1982, da mudan\u00e7a da fam\u00edlia para Annecy ao div\u00f3rcio dos pais pouco depois da mudan\u00e7a para Cergy-Pontoise, chega a c\u00e2mara Super 8, s\u00edmbolo de uma ascens\u00e3o social, ao mesmo tempo que a m\u00e1quina de lavar roupa em muitas fam\u00edlias. Atr\u00e1s da c\u00e2mara, o marido; em frente dela, as crian\u00e7as que vemos crescer; a av\u00f3, ainda de blusa; e Annie Ernaux, uma jovem mulher elegante, ali sem estar presente.<\/p>\n\n\n\n<p>A fim de deixar esta intimidade e avan\u00e7ar para uma narrativa colectiva, Annie Ernaux comenta e contextualiza, desde a vida burguesa nas prov\u00edncias onde se sente uma estranha at\u00e9 \u00e0 vit\u00f3ria da esquerda em 1981. Um per\u00edodo de &#8220;ruptura&#8221; com a sua vida anterior, mas tamb\u00e9m de regresso \u00e0 sua &#8220;promessa&#8221;: a de &#8220;vingar a [sua] ra\u00e7a&#8221; atrav\u00e9s da escrita.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque escolheu lan\u00e7ar estes filmes e partilh\u00e1-los com o p\u00fablico?<\/p>\n\n\n\n<p>Annie Ernaux: O meu filho David queria mostrar estes filmes aos seus filhos, por isso organizou uma noite de cinema, como no passado, e pediu-me que os comentasse. E percebi que eu era a mem\u00f3ria destes filmes. Mais tarde, ele disse-me: vamos fazer um filme e voc\u00ea faz a narra\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se faz a edi\u00e7\u00e3o, mas faz-se a narra\u00e7\u00e3o. E foi a\u00ed que olhei cuidadosamente para todos estes filmes, colocando-os em ordem cronol\u00f3gica. Tive um momento de interroga\u00e7\u00e3o: o que posso dizer sobre estas imagens silenciosas? E eu sa\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta hist\u00f3ria, mais do que trazer recorda\u00e7\u00f5es, era uma quest\u00e3o de trazer de volta sensa\u00e7\u00f5es?<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, porque n\u00e3o \u00e9 interessante dar mem\u00f3rias soltas. Queria colocar em perspectiva como eu estava no per\u00edodo e tamb\u00e9m como era o per\u00edodo. Atrav\u00e9s do cen\u00e1rio e da escolha do que \u00e9 filmado, pode-se sentir este per\u00edodo, alternando entre o que \u00e9 \u00edntimo e familiar e a \u00e9poca, esta \u00e9poca muito particular dos anos 70. Nessa altura, havia uma grande expectativa geral entre a popula\u00e7\u00e3o francesa, havia grandes expectativas. Estavam \u00e0 espera da esquerda, de uma parte da popula\u00e7\u00e3o. Com este filme, quis reviver a \u00e9poca, para dar uma cor da \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>Espera-se pela esquerda, numa fam\u00edlia de esquerda, mas num interior &#8220;giscardiano burgu\u00eas&#8221;, uma casa p\u00fablica. Temos a sensa\u00e7\u00e3o de que estamos l\u00e1 e de que n\u00e3o estamos, nestas imagens.<\/p>\n\n\n\n<p>Para mim houve uma ruptura com a minha vida anterior, que \u00e9 representada pela minha m\u00e3e, que est\u00e1 presente connosco. Ela encarna a minha mem\u00f3ria, pelo seu corpo, pelas suas palavras, por todo o seu ser, o que eu era l\u00e1 no fundo. E depois h\u00e1 a outra fam\u00edlia, e depois o lugar onde vivemos, esta grande casa que n\u00e3o nos pertence. E depois serei atra\u00eddo de volta \u00e0 minha promessa, de vingar a minha ra\u00e7a, que eu tinha aos 20 anos, escrevendo sobre tudo o que conheci.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ou a escrever durante este per\u00edodo, quando ainda est\u00e1 com o seu marido. Mas foi um per\u00edodo de mudan\u00e7a, aqueles dez anos: n\u00e3o podias levar a cabo as tuas lutas feministas e sociais neste contexto, neste ambiente familiar?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o era necessariamente um grande lutador. Pertenci a algumas associa\u00e7\u00f5es feministas, mas n\u00e3o fui militante, muito, muito francamente. Estive no Mlac (Movimento para a liberdade do aborto e contracep\u00e7\u00e3o). Estava a escrever n\u00e3o porque n\u00e3o me conseguia expressar, mas porque tinha coisas que estavam enterradas e que queria esclarecer e trazer \u00e0 luz de uma forma extremamente violenta. Senti esta passagem de um mundo para outro como uma viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>No seu livro Os Anos, tem esta frase: &#8220;Para salvar algo do tempo em que nunca mais se voltar\u00e1 a estar&#8221;. Esta \u00e9 uma esp\u00e9cie de defini\u00e7\u00e3o da sua vis\u00e3o da literatura. Isto tamb\u00e9m se aplica ao seu filme.<\/p>\n\n\n\n<p>Absolutamente. \u00c9 um per\u00edodo que estou a salvar do esquecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>E o que \u00e9 que guarda?<\/p>\n\n\n\n<p>O que guardo \u00e9 principalmente um sentimento. Vivi tudo isto sem realmente o querer. \u00c9 como se as coisas me tivessem acontecido e eu as tivesse seguido instintivamente. \u00c9 isso que domina quando se v\u00ea este filme.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 alguns dias recebeu o seu Pr\u00e9mio Nobel da Literatura em Estocolmo, Su\u00e9cia. Destaca-se uma imagem: voc\u00ea, quase a \u00fanica mulher, no meio de homens de la\u00e7o, num cen\u00e1rio muito ocupado. Perguntou-se se pertencia l\u00e1?<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, mas n\u00e3o creio que esteja l\u00e1, na verdade. Este \u00e9 um lugar que me foi dado, mas n\u00e3o \u00e9 o lugar onde eu quero estar.<\/p>\n\n\n\n<p>Hesitou em aceitar este Pr\u00e9mio Nobel?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o hesitei porque vejo o seu significado em termos de responsabilidades, em termos do impacto mundial do que escrevi.<\/p>\n\n\n\n<p>No seu discurso, fala novamente da sua promessa, &#8220;de escrever para vingar a sua ra\u00e7a&#8221;. Diz tamb\u00e9m que isto significa lutar contra uma forma de escrita dominante.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre pensei em escrever, excepto no meu primeiro livro, Les Armoires vides, que de certa forma limpou a ard\u00f3sia do facto de eu ser um jovem burgu\u00eas na altura. Eu queria redescobrir o caminho entre a menina da mercearia da classe trabalhadora e o mundo em que eu tinha entrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta luta \u00e9 conseguida atrav\u00e9s da escrita e do estilo.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu era professor de literatura &#8211; sempre fui professor de literatura, de facto. Ensinei literatura, aquela que foi escolhida, hierarquicamente. E nessa altura, na escola secund\u00e1ria, eu ensinava boa escrita. Esse livro era tamb\u00e9m um livro contra esta hierarquia de culturas.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias vezes nos seus textos a palavra &#8220;insurgente&#8221;, que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 necessariamente muito utilizada. Isto define-o?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m o t\u00edtulo de um livro de Jules Vall\u00e8s, um livro que li muito cedo. \u00c9 a Comuna de 1871, significa n\u00e3o aceitar o que \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Toma-o como uma defini\u00e7\u00e3o para si pr\u00f3prio?<\/p>\n\n\n\n<p>Penso que sim.<\/p>\n\n\n\n<p>Diz a si pr\u00f3prio que este Pr\u00e9mio Nobel da Literatura n\u00e3o muda a sua luta pol\u00edtica. Logo depois de o receber, estava na rua para uma manifesta\u00e7\u00e3o. Participar\u00e1 no pr\u00f3ximo protesto contra a reforma das pens\u00f5es?<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, claro que o farei. Como antes. Escolhi estar num movimento durante v\u00e1rios anos que n\u00e3o aceita o que \u00e9, nem as leis que s\u00e3o inventadas. E continuo a faz\u00ea-lo. A reforma \u00e9 uma coisa importante para mim. Sei que as pessoas que trabalharam arduamente e que v\u00e3o receber uma pequena pens\u00e3o muito tarde na vida n\u00e3o chegar\u00e3o sequer \u00e0 reforma ou desfrutar\u00e3o dela muito pouco. Claro que, na minha idade, continuo a escrever, mas n\u00e3o \u00e9 um trabalho manual.<\/p>\n\n\n\n<p>A reforma como escritor \u00e9 algo que considera? Philip Roth disse uma vez: &#8220;Vou deixar de escrever. Cecil Carol Oates disse que n\u00e3o conseguia imaginar alguma vez parar.<\/p>\n\n\n\n<p>Penso que estou algures no meio, o que quer dizer que n\u00e3o sei. Pode chegar uma altura em que quero viver sem escrever: algo muito novo, sem um projecto\u2026 Mas isso assusta-me um pouco. N\u00e3o tenho vivido sem escrever desde Annecy, em 1972. J\u00e1 n\u00e3o escrevo h\u00e1 um bom ano. N\u00e3o \u00e9 o Pr\u00e9mio Nobel. Havia o Cahier de l&#8217;Herne a seguir, o filme levou-me muito tempo, e depois a publica\u00e7\u00e3o de Le Jeune Homme, que formou um todo que era completamente delet\u00e9rio para escrever.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O primeiro filme de Annie Ernaux ser\u00e1 lan\u00e7ado na quarta-feira. 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