{"id":310,"date":"2026-05-01T14:59:34","date_gmt":"2026-05-01T14:59:34","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.mixsoul.org\/?p=310"},"modified":"2026-05-01T14:59:35","modified_gmt":"2026-05-01T14:59:35","slug":"do-sublime-ao-bizarro-uma-viagem-pelos-extremos-do-ecra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.mixsoul.org\/index.php\/2026\/05\/01\/do-sublime-ao-bizarro-uma-viagem-pelos-extremos-do-ecra\/","title":{"rendered":"Do Sublime ao Bizarro: Uma Viagem Pelos Extremos do Ecr\u00e3"},"content":{"rendered":"<p>Em 1938, na pacata regi\u00e3o italiana da Tosc\u00e2nia, o simp\u00e1tico judeu Guido cai de amores por Dora, uma professora que j\u00e1 tem o casamento marcado com um funcion\u00e1rio local. Guido \u00e9 daqueles que n\u00e3o deita a toalha ao ch\u00e3o e insiste na conquista at\u00e9 ao pr\u00f3prio dia do enlace, altura em que Dora acaba por fugir em plena cerim\u00f3nia com o seu &#8220;delicioso cavaleiro andante&#8221;. O casal vive cinco anos de pura felicidade ao lado do filho pequeno, Giosu\u00e8, at\u00e9 ao momento em que a sombra do fascismo se abate sobre It\u00e1lia e as leis de persegui\u00e7\u00e3o e deten\u00e7\u00e3o aos judeus entram em vigor. Guido e o mi\u00fado s\u00e3o metidos num comboio rumo a um campo de concentra\u00e7\u00e3o e Dora, movida pelo desespero, decide acompanh\u00e1-los. Pai e filho conseguem ficar juntos no cativeiro e \u00e9 aqui que Guido, com uma engenhosidade comovente e a ajuda de outros prisioneiros, convence o garoto de que est\u00e3o apenas num campo de f\u00e9rias a participar num longo e complexo jogo. Cada humilha\u00e7\u00e3o, cada tareia e cada momento de barb\u00e1rie s\u00e3o transformados \u00e0 for\u00e7a em provas divertidas que Giosu\u00e8 tem de superar para ganhar o grande pr\u00e9mio. Com a Liberta\u00e7\u00e3o j\u00e1 a bater \u00e0 porta, Guido acaba por morrer para garantir a salva\u00e7\u00e3o do filho, que se reencontra com a m\u00e3e num desfecho devastador.<\/p>\n<p>&#8220;A Vida \u00e9 Bela&#8221; foi, e continua a ser, um dos maiores estrondos do cinema italiano das \u00faltimas d\u00e9cadas. A proeza de Roberto Benigni de pegar na trag\u00e9dia do Holocausto e embrulh\u00e1-la numa f\u00e1bula c\u00f3mica valeu-lhe a consagra\u00e7\u00e3o absoluta e comoveu o mundo. A fita arrecadou o Grande Pr\u00e9mio do J\u00fari no Festival de Cannes e limpou tr\u00eas \u00d3scares da Academia de Hollywood: Melhor Ator, Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Banda Sonora. Apesar de alguns na altura terem torcido o nariz \u00e0 abordagem quase de farsa em torno de um genoc\u00eddio, a verdade \u00e9 que Benigni conseguiu o milagre de criar momentos de um humor contagiante sem nunca apagar a brutalidade amarga e a perversidade sanguin\u00e1ria daquela realidade. \u00c9 um aut\u00eantico hino \u00e0 vida, \u00e0 liberdade e ao amor, escrito e realizado com uma mestria intoc\u00e1vel.<\/p>\n<p>Saltando de uma obra-prima que nos esmaga a alma para a montanha-russa descart\u00e1vel do entretenimento atual, percebemos que o cinema tem este dom esquizofr\u00e9nico de nos atirar para realidades diametralmente opostas. Se a sobreviv\u00eancia de Guido era poesia tr\u00e1gica, na Netflix a sobreviv\u00eancia \u00e9 servida a frio num prato de adrenalina pura com Apex. A premissa troca os horrores do fascismo por uma ca\u00e7ada nua e crua na natureza selvagem. Charlize Theron, que j\u00e1 nos habituou a distribuir pancada da velha noutros filmes de a\u00e7\u00e3o, encarna Sasha, uma alpinista de luto que viaja at\u00e9 \u00e0 Austr\u00e1lia \u00e0 procura de paz de esp\u00edrito. O problema \u00e9 que esbarra em Ben, interpretado por um Taron Egerton completamente descompensado no papel de um assassino em s\u00e9rie s\u00e1dico que a come\u00e7a a ca\u00e7ar por entre rios e ravinas. \u00c9 um thriller intenso que vive do esplendor visual das paisagens contrastado com o p\u00e2nico de um jogo do gato e do rato de alto risco.<\/p>\n<p>A roleta dos cat\u00e1logos modernos n\u00e3o fica por aqui e leva-nos num instante da tens\u00e3o claustrof\u00f3bica para a estupidez mais aut\u00eantica e assumida. Na Prime Video, Balls Up n\u00e3o pede desculpa por ser uma com\u00e9dia para maiores de 18 onde a l\u00f3gica fica, logo \u00e0 partida, barrada \u00e0 porta. O Mark Wahlberg e o Paul Walter Hauser fazem de dois executivos de marketing que sacam da cartola a ideia de patrocinar o Campeonato do Mundo de Futebol com uma marca de preservativos inovadora. Estava tudo a correr lindamente at\u00e9 que uma bebedeira monumental durante a grande final d\u00e1 para o torto e os transforma nos gajos mais procurados do planeta. O resultado \u00e9 um del\u00edrio metido a ferros que atira para o barulho tanques de guerra, escumalha criminosa e feras perigosas. O tom \u00e9 ca\u00f3tico e a aventura n\u00e3o tem qualquer pretens\u00e3o a n\u00e3o ser fazer-nos desligar o c\u00e9rebro durante umas horas.<\/p>\n<p>Para os que acham que rir de preservativos e fugir de psicopatas na Austr\u00e1lia n\u00e3o chega, h\u00e1 sempre algo mais encardido \u00e0 espera nos confins do streaming. Dolly \u00e9 um slasher que transpira inquieta\u00e7\u00e3o e pisca claramente o olho aos pesadelos grotescos \u00e0 la Texas Chain Saw Massacre. Fabianne Therese faz o papel da jovem que vai acampar para o meio do mato com o namorado, interpretado pelo Seann William Scott, e acaba a esbarrar numa figura imponente e bizarra. O vil\u00e3o da festa \u00e9 o pr\u00f3prio lutador de wrestling Max the Impaler, que esconde as fu\u00e7as atr\u00e1s de uma m\u00e1scara de boneca de porcelana e tem a pancada bizarra de querer criar a protagonista como se fosse sua pr\u00f3pria filha. Uma mistura de terror e bizarrice que nos lembra porque \u00e9 que, por vezes, mais vale ficar no sof\u00e1 a ver cl\u00e1ssicos italianos em vez de ir passear para a floresta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1938, na pacata regi\u00e3o italiana da Tosc\u00e2nia, o simp\u00e1tico judeu Guido cai de amores<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":311,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-310","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.mixsoul.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/310","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.mixsoul.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.mixsoul.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.mixsoul.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.mixsoul.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=310"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blog.mixsoul.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/310\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":312,"href":"https:\/\/blog.mixsoul.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/310\/revisions\/312"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.mixsoul.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/311"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.mixsoul.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=310"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.mixsoul.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=310"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.mixsoul.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=310"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}