Ainda sob o impacto da leitura, é difícil não mergulhar de imediato na análise desta décima segunda edição de Star Wars: Legacy of Vader. Enquanto a norma ditaria uma pausa para reflexão, a densidade de informação, as revelações e a acção desenfreada deste número exigem uma dissecção imediata. Esta obra apresenta-se como uma destilação perspicaz da personagem de Kylo Ren e dos demónios que o impulsionaram ao longo da trilogia sequela, preenchendo de forma magistral o hiato de um ano entre Os Últimos Jedi e A Ascensão de Skywalker.
Charles Soule e Luke Ross entregam aqui um dos fascículos mais potentes da Marvel no universo Star Wars, elevando uma fasquia já por si alta. Onde outras narrativas apenas sugerem, esta aprofunda, oferecendo uma visão sobre Ben Solo que os filmes apenas esboçaram.
No Reino Onírico de Mustafar
A narrativa situa-nos num plano onírico, um mundo sombrio entre mundos, acessível apenas através do misterioso cofre na Fortaleza de Vader. Com Vaneé, o antigo servente, agora morto, nada impede Ben de entrar. No entanto, o que ele encontra não é um artefacto Sith ou uma fonte de poder ancestral, mas sim o próprio Darth Vader. É o Lorde Sith quem conduz o diálogo, proferindo uma sentença que ecoa as palavras de Yoda a Luke em Dagobah: as únicas vozes que ele ouvirá ali são aquelas que traz consigo.
Kylo persegue a figura do avô, clamando que lhe foi prometido poder. A resposta de Vader é brutal e pragmática: nunca se deve confiar numa oferta de poder. Ninguém cede poder voluntariamente; uma vez adquirido, é mantido. Ocorre então um confronto visualmente impressionante, onde um Vader gigantesco, de lentes vermelhas incandescentes, tenta alcançar Kylo. Subitamente, encontram-se no chão, frente a frente, de sabres de luz acesos. Kylo afirma ser igual ao avô, mas Vader discorda peremptoriamente. Para o Lorde das Trevas, não existe destino, apenas poder e a vontade de o usar.
A Verdadeira Face do Poder
Durante o duelo, Vader fala de si mesmo na terceira pessoa, explicando que o seu maior poder sempre foi a verdade — a capacidade de ver através das mentiras daqueles que o tentavam controlar. Foi essa verdade que o levou a quebrar as regras Jedi para casar com Padmé e, mais tarde, a destronar Palpatine. Quando Vader agia por si próprio, e não pelos outros, era quando se encontrava mais forte.
Num momento de viragem narrativa, Vader remove o capacete para revelar não o rosto queimado de Anakin, mas a face intacta de Ben Solo. Esta versão, livre da influência corruptora do Lado Negro, confronta Kylo com uma realidade dura: não há nada para ele naquele castelo. Ben acusa a sua contraparte de ter destruído todas as relações com aqueles que amava, restando-lhe apenas fomentar uma ligação com um fantasma, Vader. Enquanto Vader tinha as suas razões, a destruição causada por Ren carece de propósito, sendo motivada apenas pelo medo e pelo desejo de fugir de um passado inescapável.
A única acção original de Ren, nota o espectro de Ben, foi permitir que Tava Ren vivesse, recusando-se a imitar cegamente o que o seu pai ou avô teriam feito.
O Confronto com o Passado e o Futuro
A tensão escala quando Ben afirma que Kylo arruinou tanto o seu presente como o seu futuro, sendo essa a razão pela qual deseja tão ardentemente “matar o passado”. De forma incisiva, sugere que se Kylo não fosse quem é, talvez a rapariga Jedi lhe tivesse aceitado a mão. O combate físico dá lugar a uma das páginas mais belas da banda desenhada moderna de Star Wars, cortesia de Luke Ross, mostrando Han e Leia a embalar o filho recém-nascido.
Ben urge Kylo a parar de olhar para trás e a ignorar as vozes na sua cabeça. O espectro avisa-o para ter cuidado com o que deseja, pois encontrará inimigos se assim o procurar. É uma interação fascinante que sugere não estarmos perante uma mera alucinação, mas talvez o próprio Ben Solo, redimido após o sacrifício em A Ascensão de Skywalker, a romper as barreiras do tempo para lançar as bases da sua própria redenção no passado. Esta auto-realização é o verdadeiro prémio escondido nas entranhas da Fortaleza.
Um Final e um Novo Começo
A edição termina com Kylo a cair do castelo de Vader, enquanto a narrativa declara: “O reinado termina. A queda começa”. Há também a promessa explícita de que Kylo Ren regressará. Embora a produção da Marvel pareça estar a abrandar em 2026, com vários títulos a encerrar em março, a qualidade de séries como Jedi Knights, Hunt for the Falcon e este Legacy of Vader demonstra que os leitores estão a ser bem servidos.
O contraste visual criado por Luke Ross entre o rosto devastado de Kylo e a face fresca de Ben adiciona uma camada extra de drama a um argumento exímio. Resta agora aguardar pelo próximo passo editorial da Marvel, provavelmente a ser anunciado a tempo do Dia de Star Wars em maio, mas fica a certeza de que esta série de doze números daria, por si só, uma série televisiva arrebatadora. O “inimigo real” prometido a Kylo, seja Tava Ren ou o ressuscitado Palpatine, aguarda no horizonte, mas a verdadeira batalha — a interior — atingiu aqui o seu clímax.
You may also like
-
Destaques da Música: A cumplicidade de Zambujo e Araújo na Altice Arena e o regresso aos palcos dos Pavement
-
Novas Produções de Destaque: De “O Crime do Padre Amaro” à Aposta de Terror da Netflix
-
Uma Revolução em Série: O Legado de “3 Mulheres”
-
O Futuro de Jason Bourne Assegurado: Universal Adquire Direitos de Forma Perpétua
-
“Project Hail Mary”: Ryan Gosling é a última esperança da Terra no regresso de Lord e Miller
Star Wars: Legacy of Vader #12 — O duelo final de Kylo Ren contra a sua própria verdade
Destaques da Música: A cumplicidade de Zambujo e Araújo na Altice Arena e o regresso aos palcos dos Pavement
Fãs de Star Wars exigem filme cancelado com protesto aéreo sobre a Disney