Uma Revolução em Série: O Legado de “3 Mulheres”

Numa era de vasta produção televisiva, as séries que se alicerçam na história e em figuras marcantes continuam a ter um lugar de destaque. Em Portugal, um dos exemplos mais notáveis é “3 Mulheres”, uma série de ficção que mergulha nos anos finais do Estado Novo, entre 1961 e 1973. A narrativa recorda um país em plena Guerra Colonial e à beira da Revolução de Abril, através do olhar e da intervenção cívica e cultural de três personalidades incontornáveis: a poetisa Natália Correia, a editora Snu Abecassis e a jornalista Vera Lagoa, pseudónimo de Maria Armanda Falcão. Os percursos cruzados destas mulheres exemplificam a coragem e o compromisso com a mudança numa sociedade amordaçada.

As Protagonistas da Mudança
A série retrata fielmente a essência de cada uma destas figuras. Natália Correia é apresentada como a escritora irreverente e polémica, cujo lançamento da “Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica” a levou a ser condenada em tribunal, um ato de desafio à censura da época. Maria Armanda Falcão, que começou como a primeira locutora da RTP, transformou-se numa cronista e jornalista destemida, usando a sua voz para denunciar injustiças, como a prisão sem culpa formada de Tengarrinha e a violência dos interrogatórios da PIDE. Por sua vez, a dinamarquesa Snu Abecassis, fundadora das Publicações Dom Quixote, era vista como uma “princesa nórdica” que acreditava firmemente que o acesso à cultura e à aprendizagem era fundamental para a liberdade, desafiando o regime através dos livros que publicava.

A Competição Global: A Aposta da Apple TV+ na Qualidade
Saindo do panorama nacional e olhando para o cenário internacional, a busca por produções de qualidade é uma constante nas plataformas de streaming. A Apple TV+, em particular, tem-se destacado pela sua perseverança em oferecer um catálogo onde a qualidade parece ser mais uma regra do que uma exceção. Enquanto outras plataformas equilibram grandes sucessos com conteúdos mais ligeiros, a Apple aposta em projetos com valores de produção e execução notáveis. Séries como Ted Lasso, a comédia mais premiada da história dos Emmys, Severance, com a sua trama críptica e sofisticada, ou The Morning Show, com um elenco de estrelas capaz de iluminar qualquer ecrã, são provas desta ambição.

“Slow Horses”: A Estrela Discreta do Thriller Britânico
Apesar dos sucessos mencionados, a série que talvez melhor represente a identidade da Apple TV+ é Slow Horses. Este thriller, baseado nos romances de Mick Herron, estreou em abril de 2022 e rapidamente conquistou os apreciadores do género policial britânico, mas com uma abordagem distinta. Em vez do drama solene, o argumentista Will Smith optou por adaptar a obra com um forte cunho de comédia negra e cínica. A trama centra-se na “Slough House”, uma unidade do MI5 para onde são exilados os agentes que cometeram erros graves. A liderar este grupo de “cavalos lentos” está Jackson Lamb, um espião lendário, agora um chefe alcoólico, desleixado e deliberadamente desagradável, interpretado de forma brilhante por Gary Oldman.

Consistência e Nível: A Chave do Sucesso
O que torna Slow Horses tão especial é a sua impressionante consistência. Temporada após temporada, a série mantém um nível de qualidade excecional. A primeira temporada envolveu a equipa numa investigação ligada a um grupo de extrema-direita; a segunda mergulhou em segredos da Guerra Fria; e a terceira elevou a tensão com o rapto de uma das administradoras da unidade, expondo a corrupção dentro do próprio MI5. Com a promessa de novas temporadas que mantêm o mesmo ritmo e inteligência, Slow Horses demonstra que, seja numa reconstrução histórica portuguesa ou num thriller de espionagem britânico, uma narrativa bem construída e personagens complexas são os verdadeiros pilares de uma televisão memorável.

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